domingo, 23 de outubro de 2011

Tudo o que você sempre quis saber sobre Nollywood, mas nunca teve a quem perguntar

Se você ficou tão curioso quanto eu pela incrível história do cinema nigeriano, mas nunca teve como obter mais informações, seja por que elas não existem aos montes na Internet, seja por que você não tem nenhum amigo nigeriano para quem telefonar ou mesmo por que a Nigéria é muito longe pra se fazer uma visitinha casual, então essa série de posts foi feita para você.

Estive na capital da Nigéria, Abuja , onde aconteceu o maior encontro sobre o cinema nigeriano do ano: o Best of the Best of Movies and Television 2007, ou BoBTV para os íntimos. Em meio a celebridades da cena de cinema local, autoridades do governo, investidores e cobertura da principal TV nacional (a Nigerian Television Authority) me aventurei em meio a savana audiovisual nigeriana (sem trocadilhos, por favor) para descobrir mais sobre essa fantástica indústria que produz mais de 1200 filmes ao ano. Felizmente, eu não fui sozinho nesta jornada. Também fizeram parte da comitiva, MV Bill (rapper, e diretor de “Falcão: Meninos do Tráfico”) e Pedro Lacaille da Central Única das Favelas (CUFA).
por Bruno Magrani


Para entender o cinema nigeriano é necessário primeiro conhecer a Nigéria. A Nigéria é o país mais populoso da África, com 140 milhões de habitantes. As principais atividades do país são a agricultura, o petróleo e (adivinhem) o cinema, não necessariamente nesta ordem. A capital da Nigéria, que você já sabe o nome, é em certa medida semelhante à Brasília. Essa afirmação não é minha, mas da Wikipedia. A capital da Nigéria até 1991 era Lagos, mas consolidando um plano de desenvolvimento do interior do país o governo federal decidiu construir uma nova cidade no meio do país. Diferentemente de Lagos, ela é muito mais limpa, conta com mais prédios novos, ruas largas e crescimento aparentemente planejado. Isso, contudo, não apaga do horizonte as pequenas vilas, onde ainda moram a grande maioria dos trabalhadores da cidade. Além disso, a Internet banda larga ainda é bastante escassa e constantemente falta luz, inclusive nos grandes hotéis como Abuja Sheraton Hotel.

Segundo o jornal The Economist, o boom de Nollywood remonta a uma história interessante acontecida no início da década de noventa. Um comerciante, chamado Kenneth Nnebue percebeu que poderia vender muito mais facilmente as fitas VHS que tinha em estoque se gravasse um filme nelas. Este pioneiro, ao invés de fazer cópias ilegais de filmes estrangeiros (que seria a saída mais fácil, apesar de ilegal) resolveu produzir um filme por conta própria. Dessa forma, o filme Living in Bondage foi o primeiro “blockbuster” do cinema nigeriano, tendo vendido mais de 750 mil cópias. Nnebue descobriu um filão na Nigéria. Sem salas de cinema e a alta taxa de criminalidade, restavam poucas alternativas de diversão. A partir daí Nollywood começou a despontar no cenário internacional e hoje tem um mercado que vale 200 milhões de dólares e é o segundo maior empregador do país, somente atrás da agricultura.

O BoBTV 2007 ocorreu entre os dias 12 e 15 de março de 2007 no Abuja Sheraton Hotel, provavelmente o melhor hotel da cidade, que em geral recebe os barões do petróleo que vem negociar com a Companhia Nigeriana de Petróleo. A abertura foi feita com muita pompa. Estavam presentes a Ministra da Educação, Mrs. Obiageli Ezekwesili, o diretor do National Copyright Commission, Adebambo Adewopo, diversas atrizes lindamente vestidas com seus coloridos bubas (tradicional vestido nigeriano), além de muita gente importante do mercado de cinema e televisão.

O discurso de abertura foi feito pela Ministra da Educação. Muito carismática, a ministra arrancava aplausos da platéia a cada 5 min. Começou elogiando muito sua indústria de cinema e comentou sobre o orgulho que sentiu ao ver a matéria sobre cinema nigeriano no The Economist. Em seguida comentou sobre o apoio que o governo nigeriano pretende dar a indústria do cinema. Eles estudam a criação de uma academia nacional de cinema, para capacitar produtores, diretores, artistas e todos os envolvidos na produção e distribuição de cinema. A indústria do cinema é tratada pelo governo nigeriano como a grande nova mola propulsora da economia juntamente ao petróleo. No final de seu discurso, ao ver a mim e outras três pessoas brancas na platéia, enviou-nos uma mensagem: “…vejo que temos alguns estrangeiros participando do evento. Quero que vocês voltem para seus países e espalhem a mensagem de que a Nigéria tem uma fantástica indústria de cinema e que está preparada para crescer e expandir pelo mundo a fora.”

Nollywood não dorme no ponto. Quem acha que ela é atrasada e rústica, está redondamente enganado. Já faz algum tempo o conteúdo é filmado diretamente em filme digital de alta definição e gravado em DVDs ao invés dos VCDs e VHS que fizeram sucesso por algum tempo. Conversei com um revendedor da Apple no país, responsável pela venda do software final cut e de máquinas mac para cineastas locais e ele me confessou que está fornecendo consultoria, equipamento e software para levar sinal com qualidade digitial de alta definição até às emissoras de TV. Quando eles vão conseguir transferir efetivamente a tecnologia aos usuários ainda não está certo, mas o caminho já está sendo trilhado. Além disso, há um canal de satélite, o Africa Magic que cobre toda a África e transmite filmes nigerianos 24h por dia. Outra novidade interessante é que a tecnologia 3G será instalada na Nigéria no próximo mês e a indústria já está de olho em novas formas de distribuir sua enorme produção e gerar ainda mais receita.

E ainda tem muito mais que vai ficar para o próximo post, incluindo entrevistas, mais informações, a história de como eu fui entrevistado pela maior TV local e de como fui parar em uma mesa para apresentar informações sobre a indústria de cinema brasileira, além de atualizações sobre a World Premiére da qual participei.

Até o próximo post.

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